Submersão na subversão, ou Al(can)çando novos horizontes

Remo contra a corrente
que pensa que me prende.
Corro contra o tempo numa pista ensaboada.
Na contramão do trilho do trem de pouso,
silenciosamente ouço
o ranger das engrenagens.
Plano sem plano de voo poucos instantes
após a decolagem.
As certezas não se firmam como antes.
As dúvidas perdem um tanto da coragem.
Mesmo sem saber o destino
não desisto da viagem.

Paulo Ferrari

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De como deve ser o primeiro poema do ano

O primeiro poema do ano
deve ser ameno como brisa morna,
de porte pequeno pra se ler de perto,
uma porta deixada semiaberta
por onde passam, sem direção certa,
estilhaços tímidos do ano passado.
O primeiro poema do ano
não deve revelar os planos,
mas deixar que os talantes voem plenos
e de repente pousem em nossas mentes
sem mais nem menos.

Paulo Ferrari

Da contingência da inspiração que pode não ser mais necessária

Este pode ser o meu último poema,
meu último suspiro de inspiração.
Pode ser que depois dele eu me cale,
também pode ser que não.
Pode ser que tudo o que pode ser
seja necessariamente
ou pode ser que não seja,
que a inspiração que sobeja,
passe por mim indiferente.
Pode ser que eu seja um tolo
que não sabe distinguir
o necessário do contingente.

Paulo Ferrari

Da impossibilidade de dissociar aquilo que penso daquilo que sou

Se o que penso não diz pra onde vou,
se o que penso não faz este meu eu,
quem é o arquiteto neste corpo meu?
Se não sou o que acredito,
o que acho feio ou bonito,
o que julgo bem ou mal;
se não sou meus vereditos,
o que me torna real?
Um olhar que seduz?
Um corpo escultural?
Um novo look?
X amigos no Facebook?
Contrassenso.
Se faço, faço porque penso;
se penso, penso porque sou.

Paulo Ferrari

Daquilo que é realmente doce e não engana o paladar

Doce mesmo só o mel,
o açúcar, os cães.
O resto é aspartame,
que engana no primeiro trago,
depois fica com gosto de remédio.
Doce mesmo só a cana,
o brigadeiro, as joaninhas.
O resto é sacarina,
e pela própria natureza fóssil
não se digere fácil.
Doce mesmo só a manga filipina,
ao paladar com o qual se relaciona.
Doce mesmo é o que fermenta de verdade
e nem por ignorância, nem por maldade
decepciona.

Paulo Ferrari

Da incapa(cidade grande) de viver

Respiro fundo como se existisse ar
pra respirar.
Estaciono meu carro
como se a rua fosse também minha,
e descubro que já tem um dono,
que exige moedinhas.
Caminho noite adentro
como se tivesse esse direito
de apenas caminhar.
Num triste porto, num mundo imperfeito,
fico satisfeito em avistar minha porta.
Chego em casa são e salvo
simulando liberdade
depois de quase virar alvo
da mira laser
da minha cidade.

Paulo Ferrari