Daquilo que foi não sendo, ou, Um pequeno problema ontológico

Como se tivesse sido pouca coisa,
como se tivesse sido quase nada,
como se tivesse sido coisa alguma,
como se alguma coisa tivesse sido
a gota d’água.
Como se fossem àguas passadas,
como se não fossem máguas,
como se possível fosse trégua,
como se não doesse, não fizesse
morrer à míngua.
Mordida a língua entre bravatas, promessas,
pilhérias, prognósticos e palpites.
Como se não estivesse incomodado,
como se pudesse não ter ultrapassado
todos os limites.

Paulo Ferrari

Nullum crimen

Quando não faz mais sentido,
não faz mais sentir.
Mas que não haja excesso de cautela
na caminhada que segue pós-letargia…
que sentir é bom, ainda que tire
o ar, suspiros, a paz… ainda que vire
a mesa com toalha e tudo que tiver em cima.
Sentir é bom; não sentir é morte.
Se nesta vida-mar-de-dúvida
a morte é a única certeza,
que se sinta muito, à vontade, à própria sorte,
e se for pra matar sentimentos,
que seja apenas em legítima defesa.

Paulo Ferrari

Tantas quantas sejam

Escorreguei na vontade de dizer alguma coisa
e caí sentado.
Caí na tentação de falar e perder a chance
de ficar calado.
Tropecei na vontade de me projetar,
de aparecer num relance sem calcular
o raio de alcance.
Não alcancei… fiquei do lado de cá do muro
onde é mais vazio, onde é mais seguro…
Sem querer (porque às vezes é sem querer),
descobri, pintando arco-íris preto e branco
e paisagens de jardins sem cor,
que são tantas as formas de ódio
quantas são as formas de amor.

Paulo Ferrari

Dark side of the La Mancha

Ontem, brincando de ver formas em nuvens,
enxerguei o Roger Waters de perfil.
Em seguida, com o vento e com o tempo lentamente ele se desfez…
e apareceu o Dom Quixote, de barbicha e elmo,
que também se desMachou com o vento…
Senti que a minha metade insana,
que vê gigantes onde só há moinhos de vento
e que se esconde no lado escuro da minha Lua,
queria apenas respirar.
Respira… respira o ar…
Quem sabe hoje as nuvens,
modeladas por esta imaginação;
quem sabe o vento… fresco e prazeroso
tirem as notas graves da minha canção
e tragam flutuantes o perfume
dos cabelos de Dulcineia del Toboso…

Paulo Ferrari

De Homero a Leminski, ou, Poemando-se

Não importa a forma, não importa o tema.
Importa que esteja aberta a porta
pra que seja poema.
Um poema sobre alguém que se vai,
um poema com versos dodecassílabos,
um haikai.
Um poema feito com lágrimas nos olhos,
um poema que faz chorar.
Um poema com cem versos,
um poema sem versos,
escrito apenas com a maneira de olhar.
Um poema que vem de chofre e nos sacode,
uma ode.
Um poema engraçado à beça,
um poema pra desgraçar a cabeça.
Um poema sobre um amor secreto,
um poema concreto.
Não sei bem sobre o que versa este poema,
não sei bem como ele verte em mim.
A porta está aberta, que continue assim,
sem importar a forma, sem importar o tema.

Paulo Ferrari

En passant

Do outro lado da rua o passado
me olha com dificuldade de reconhecer.
Espantoso, necessário e descabido
agir como se nada tivesse acontecido,
seguir como se nada pudesse acontecer.
Do futuro, quase nada a dizer.
Recheado do que nem se imagina,
não está (como o passado) do outro lado da rua,
mas me aguarda, incerto, na próxima esquina.

Paulo Ferrari

Da impossibilidade de prever fenômenos meteoro(i)lógicos

Há muito que não vejo a previsão do tempo.
Agora nem lembro se choveu ontem,
se choveu semana passada.
Lembro quando trovejou em mim,
quando o tempo fechou por dentro,
quando choveu aqui do lado esquerdo
e o sol apareceu ao mesmo tempo,
assim… sem formar arco-íris.
Lembro agora quando, de dentro pra fora,
um furacão começou…
Lembro que, logo em seguida, de novo,
lentamente, ultraviolento e ardente
o sol me brilhou e me consumiu inteiro.
Tudo de repente, sem prévio conhecimento,
que isso não há como prever,
não há como dizer que a probabilidade
das pancadas virarem tornado
seja de qualquer coisa por cento.

Paulo Ferrari

Para alguém que eu jamais vou conseguir entender

Creio que um dia ainda, antes de morrer,
posso até vir a compreender,
em um nível razoável e analgésico
o que quiseram dizer
caras como Parmênides, Hegel, Husserl,
Wittgenstein (o primeiro e o segundo),
Kubrick, Allan Poe, os irmãos Wachowski
e outros cascudos, lixas de pé,
que arrepiam o pouco cabelo que ainda tenho
e fazem nós de marinheiro na minha cabeça.
Acredito sim que ainda vou conseguir explicar
a uma criança de cinco anos
como são possíveis os juízos sintéticos a priori só pra vê-la sorrir.
Por que não?
Mas eu tenho certeza que jamais,
jamais, jamais, jamais, jamais,
jamais vou conseguir te entender.

Paulo Ferrari