Separada mente, ou, Um dualismo digno de reproche

Minha mente a mim mente descarada… mente… e por mim é de repente
desmascarada…
Sempre me prega peças
com pregos longos e enferrujados.
Cria cenários presentes
com imagens do passado.
Minha mente me alegra
quando quase me convence
que nem tudo parece uma tragédia grega.
Em seguida, dá-me um presente de grego
dentro de uma ideia disfarçada.
Minha mente deixa-me dor,
deixa-me dormente
e me acorda em plena madrugada
por nada…
Queria, desesperada mente,
que tu fosses tu e eu fosse eu.
Mas que ilusão, a quem enganar?
Por mais alto que o voo seja,
minha mente e eu somos o mesmo,
estamos no mesmo lugar.

Paulo Ferrari

Giant leap, ou, Um corte incontido no continuum

Uma evasão temporal
não seria nada mal…
Uma evasão no espaço,
é só dizer como faço…
Subir os degraus de dois em dois,
contemplar agora o que vem depois.
Pois, que dizem alguns: calma, vai passar;
eu digo: deixem-me passar
por cima deste pedaço incomensurável
de (co)lapso;
deixem-me alcançar a maçaneta minúscula
da abertura do alçapão
que me fecha numa bolha semipermeável
de solidão…
Uma evasão sonora,
uma melodia que me leve embora
do enfadonho instante.
Um ataque de ideias criativas
que me ajudem a direcionar
pra onde possam levar
minhas manobras evasivas…

Paulo Ferrari

Dos raios que nos partem, ou, A maldição de Apolo e Tesla

Oh raio… por que foste me atingir
quando eu impassível sossegava?
Covarde, filho da tempestade,
vieste me acordar a tapas,
aos berros, a baldes de água fria…
Roubaste a minha paz, lograste acabar com a doce calmaria… do meu mar.
Oh raio… quiseste disfarçar…
revelaste primeiro a luz, os gigawatts,
depois tentaste, sorrateiro, me matar.
Miraste um ponto certo da garganta
e caíste… várias vezes… no mesmo lugar.
E saíste… do teu disfarce sem misericórdia.
Em teu pérfido fogo hiperveloz, arde dor.
Só depois de conhecer-te, descobri:
Teu nome é raio, é anseio, é amor.

Paulo Ferrari

Do silêncio ultrassônico da baixíssima frequência (parte II)

Às vezes calo demais.
Como uma brisa ao catavento,
peco pela falta.
Deixo a flutuar no pensamento
o que em algum momento
poderia dizer em voz alta.
Simplesmente calo a boca, guardo a pena,
fecho a matraca, cerro os dentes,
e o silêncio dorme sobre
a minha língua dormente.
Às vezes calo em alto e bom som,
e assim fica bom.
Fecho a porta do vernáculo
e é melhor assim.
Palavra é torpedo, e lançada
é sujeita ao rebote
ao ricochete, à raquete, ao chicote.
Prendo algumas pra que sirvam
de exemplo às demais.
E é melhor assim…
Palavra que sai apressada
pede pra ser arremessada
de volta contra mim.

Paulo Ferrari

Minha experiência resumida e engraçadinha com a História da Filosofia Ocidental

Depois de celebrar um (improvável) pacto
entre Parmênides e Heráclito;
Depois de uma acalorada discussão
dentro da caverna do Platão;
Depois de me estatelar com Aristóteles,
a quem ofendi citando Sócrates;
Depois de pegar uma carona
na conversa fiada do Agostinho de Hipona;
Depois de ter criado ontológica celeuma
com o medievo Santo Anselmo;
Depois de dizer pro Tomás de Aquino
ver se estou lá na esquina;
Depois de dividir o assunto em partes
num papo reto com Descartes;
Depois de um dedo de prosa
com o panteísmo do Espinosa;
Depois de não ter me saído mal
numa aposta com Pascal;
Depois de ouvir descrente alguns palpites
do cabeludo Leibniz;
Depois de dizer que não tinha ciúme
de nada que ouvi do David Hume;
Depois de um racional levante
contra os juízos do Kant…
Mandei o Schopenhauer tomar no Hegel
Peguei o martelo do Nietzsche emprestado
e, a golpes firmes, destruí a lataria
da enferrujada carruagem da filosofia.
Pelo menos dentro de mim… foi assim…
fiquei um pouco enjoado…
Teria sido um pequeno desastre
não fosse o Jean-Paul Sartre
ter me oferecido uma pílula vermelha
de compulsória liberdade
e solicitamente me ajudado
a diminuir a náusea com alívio imediato.
Depois que fiquei bem, saímos a passear
ao infinito e além:
Ele, eu e Simone de Beauvoir…

Paulo Ferrari

Do silêncio ultrassônico de baixíssima frequência

Às vezes falo demais.
Avanço o sinal no verbo, assumo o risco.
Um passo maior que a linguagem,
tropeço com a língua nos dentes,
caio de boca nas minhas bobagens.
Algumas, palavras mornas, inocentes…
outras, de lava incandescente,
líquida verborreia,
como o choro do Vesúvio
nas últimas horas de Pompeia.
Às vezes penso demais
e falo o que penso… e canso
de ter pensado em voltar atrás.
Pra quem quer só bem querer,
um malfadado maléfico fado.
Palavra tem que ser ponte, não dinamite.
Ainda que eu sofra de palavrite,
moléstia incurável…
quase sempre de vez em quando
é acertado…
ficar calado.

Paulo Ferrari

Epistemologia simplificada para sabedores, não sabedores, tábulas rasas e mentes abertas

Quando não sabemos nada sobre qualquer coisa, sabemos tudo.
Quando sabemos qualquer coisa sobre alguma coisa, já sabemos menos.
Quando sabemos muito sobre alguma coisa, já sabemos quase nada.
Quando sabemos tudo sobre qualquer coisa, sabemos que não sabemos coisa alguma sobre o que quer que seja, inclusive que é possível que não se saiba nada sobre coisa alguma.
Uma vez que façamos as perguntas:
É possível saber algo? ou
O que posso saber?
Não há outra coisa a fazer que não seja colocarmos o elmo e a malha de aço
e nos prepararmos para as respostas,
sejam elas quais sejam,
ainda que nem cheguem a ser, porque….
quando não sabemos nada sobre qualquer coisa…

Paulo Ferrari

Um degluti(dor) autofágico

Da boca pra fora
gás carbônico, vapor d’água,
metáfora, eloquência, articulação.
Da boca pra dentro
ar comprimido, sentimento,
metafísica, paciência… introspecção.
Quero qualquer coisa imediata,
intensa, à prova de fogo,
qualquer coisa sincera.
Sabe-se lá o que me espera.
Um rio que não desvie o curso,
um embalo que não perca força.
Quero qualquer coisa pr’agora
que não seja da boca pra fora,
que não me faça cair em pranto,
sair do centro.
Qualquer coisa que não me maltrate,
que não me mate
da boca pra dentro.

Paulo Ferrari

Que seja como for, mas que seja (diá)logo

Eu preciso de uma boa conversa…
de perto, presencial, sem pressa.
Um pouco de café, cerveja, o que seja…
e entre nós apenas uma mesa.
Preciso de uma boa convesa
com assuntos caindo diversos:
O ciclo da água na natureza;
Literatura em prosa e verso;
O que realmente importa;
Se existe vida em Marte;
História da arte;
Qual o sentido da vida;
A quantidade de minutos que falta
para a nossa despedida.
Que o tempo que me faz refém
nesta chalaça perversa,
leve-me logo a algum lugar,
traga-me logo algum alguém,
para uma boa conversa.

Paulo Ferrari