Viv(acida)de ou não viva

O ar da cidade, ácido arde simplesmente.
Ardilosa atmosfera que faz perder a calma.
Nauseabundas fragrâncias
que naufragam em meio às ânsias da alma,
confundem os sentidos a cada esquina,
e eu confundo nuvens e concreto
quando olho para cima.
Não sei se resisto à próxima boca
que vier a me sorrir.
Não sei se dos próximos olhos
que minha vista encontrar
desvio de imediato ou me demoro no olhar.
O ar da cidade assim se manifesta:
em cada rosto, em cada resto,
em cada cesto de lixo, em cada sexta.
O ar da cidade quer que eu viva pouco.
Palco do roubo da minha sanidade.
Vive a roubar a vivacidade
que me impede de ficar louco.

Paulo Ferrari

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De quando somos muitos, sendo nós e tudo ao mesmo tempo

Em devaneios vespertinos
ninguém me vê partindo,
saindo de mim mesmo.
Ninguém me vê perdido,
em pensamentos ladinos;
pensamentos despertados
por sonhos abafados,
por projeções incríveis
e por mundos possíveis.
Devaneios vespertinos
obrigam a ser discreto,
letargicamente desperto.
Obrigam a fechar os olhos
de olhos abertos.

Paulo Ferrari
http://www.palavrite.wordpress.com

Pseudópodes torcidos de um mundo centopeico

O pé de apoio
pede apoio.
Mundo sem pé nem cabeça,
infestado de cabeças de vento
que seguem o rumo da venta
sem aventar ideia
de rumo certo a seguir.
O pé de apoio
perde o páreo
e pergunta: como pode
o mesmo mundo de tanta arte
ser o mundo de tanta morte
e fazer, dessarte, tantas mentes
colapsarem quase de repente?

Paulo Ferrari

De quando o excesso não faz falta e o suficiente já é em demasia

Se um dia eu escrever um soneto,
serei direto.
Direi tudo no primeiro quarteto
e nas demais estrofes ficarei quieto.
Se um dia compuser uma sonata
usarei poucas notas. Só a nata.
Pra que depois do primeiro movimento
já não sobre quase nada.
Se um dia eu for digno de nota,
espero ter feito o insuficiente
e não parecer um idiota
em não querer pecar pelo excesso,
mas pela falta.

Paulo Ferrari

Para não dar ponto (de vista) sem nó

As cores que correm pelos olhos a esmo
não se desmembram do mesmo prisma.
Meus pontos de vista perdem a cabeça,
furam a fila sem pedir licença
e alegam agir em legítima defesa.
A razão não dá conta, e às vezes nem conta.
A emoção fecha os olhos pra tudo.
Piada pronta.
Espero dos pretensiosos sofismas
que aparecem no meio do caminho
e dos desaforados aforismos
que me deixam falando sozinho
enquanto comem migalhas esfareladas
na mão aberta da insanidade,
que me deixem em paz
enquanto ingenuamente procuro
alguma esfarrapada verdade.

Paulo Ferrari

Submersão na subversão, ou Al(can)çando novos horizontes

Remo contra a corrente
que pensa que me prende.
Corro contra o tempo numa pista ensaboada.
Na contramão do trilho do trem de pouso,
silenciosamente ouço
o ranger das engrenagens.
Plano sem plano de voo poucos instantes
após a decolagem.
As certezas não se firmam como antes.
As dúvidas perdem um tanto da coragem.
Mesmo sem saber o destino
não desisto da viagem.

Paulo Ferrari

De como deve ser o primeiro poema do ano

O primeiro poema do ano
deve ser ameno como brisa morna,
de porte pequeno pra se ler de perto,
uma porta deixada semiaberta
por onde passam, sem direção certa,
estilhaços tímidos do ano passado.
O primeiro poema do ano
não deve revelar os planos,
mas deixar que os talantes voem plenos
e de repente pousem em nossas mentes
sem mais nem menos.

Paulo Ferrari